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Choros
16/07/2016

Reprodução integral de texto do professor Ms. Aldo Vannucchi, da UNISO – Universidade de Sorocaba, de sua coluna semanal do Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba e região, do dia 16.07.2016.
 
Aldo Vannucchi
 
A renúncia de Eduardo Cunha, semana passada, não surpreendeu ninguém, mas gerou muito papo oral e internético, além de acender a cobiça de uns quatorze deputados, sequiosos pelo comando da Câmara Federal. A mim o que me interessou foi uma filigrana do xou montado naquela tarde, o chorinho do parlamentar, no final do seu pronunciamento. E note-se que ele já fora visto aos prantos, no dia em que o Supremo Tribunal Federal decidiu afastá-lo do cargo.
 
Como o Congresso tem sido palco de muita comédia, aproveito a deixa, para me distrair com outro choro, o choro que integra a música popular brasileira, com flauta, violão, cavaquinho e algo mais. E porque estamos em Sorocaba, desse choro nacional passo à viola dos tropeiros, que costumavam viajar com ela, posta dentro de um saco, amarrado à garupa do seu animal. Não havia pouso em que não a tocassem, antes de dormir o sono reparador. Fogo aceso, noite adentro, havia sempre um tropeiro a planger sua viola dolente: "Chora viola sentida/ no peito de quem padece/ só minha viola sabe/ quem meu coração não esquece".
 
Terminado o ciclo das tropas, prevaleceu a moda de viola, típica expressão da música caipira. Música rural, com letras apaixonadas, e uma dupla, como Tonico e Tinoco, a contar histórias como a de Chico mineiro e do Menino da porteira ou cantando a inesquecível Tristeza do Jeca: "Nesta viola eu canto e gemo de verdade/ cada quadra representa uma saudade".
 
Engana-se, porém, quem vê a toada caipira eternamente triste e presa ao mundo da roça. A moda de viola virou música urbana e, com seu perfil contagiante, ganhou o rádio e a televisão. Não há cidade que desconheça, por exemplo, a chorosa Saudades de Matão: "Neste mundo eu choro a dor/ de uma paixão sem fim...", ou a maliciosa Moda da Pinga que ganhou sucesso pelo Brasil afora, na voz de Inezita Barroso: "Co"a marvada pinga/ é que eu me atrapaio/ eu entro na venda e já dou meu taio/ pego do copo e dali não saio/ ali mesmo eu bebo/ ali mesmo eu caio/ só pra carregá é que dou trabaio".
 
Companheira assídua do músico brasileiro, a viola mostrou presença ativa até nos piores anos da nossa Ditadura. Foi dedilhada com veemência, por exemplo, na vitoriosa Disparada de Geraldo Vandré, cantada, em 1966, por Jair Rodrigues, em que se apresenta a população maltratada, como a boiada pelos boiadeiros, advertindo, porém, com firmeza: "Se você não concordar/ não posso me desculpar/ não canto para enganar/ vou pegar minha viola/ vou deixar você de lado/ vou cantar noutro lugar".
 
Um ano depois, para registrar no mesmo tom aqueles dias ameaçadores, Marcos Valle lançou Viola em noite enluarada, onde "o mesmo pé que dança um samba /se preciso vai à luta... e grita: eu vou... Liberdade".
 
Hoje, Brasil democratizado, o chorinho de Eduardo Cunha não inspira nenhum violeiro. A ele não resta senão enfiar a viola no saco e sair de fininho do cenário político, para ganhar, logo mais, uma boa temporada na prisão, já que é réu em duas ações penais por corrupção e lavagem de dinheiro. Pela Constituição, poderia até ser Presidente da República, e agora é, por fora, bela viola; por dentro, bem bolorento.
 
Aldo Vannucchi é mestre em filosofia e teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (Fafi) e reitor da Uniso - aldo.vannucchi@uniso.br

Conheça mais sobre o professor Aldo Vannucchi em: 
Homenagem a dois sorocabanos ilustres - Steffen e Vannucchi

IDS




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