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Assunto polêmico
26/06/2016

Reprodução integral de texto do mestre professor Aldo Vannucchi, da UNISO – Universidade de Sorocaba, de sua coluna semanal do Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba e região, do dia 25.06.2016.
 
Uma coisa é jogo como diversão; outra coisa, o vício do jogo.
 
Aldo Vannucchi

 
Realmente, o Brasil não é para principiantes. Aqui, o sim e o não, muitas vezes, se equivalem, sem a menor cerimônia. Para comprovar, veja, por exemplo, os jogos de azar. Estão proibidos desde 1946, e, há 12 anos, foram também descartadas as casas de bingo e as máquinas caça-níqueis; no entanto, andam por aí, livres e vitoriosas, a tradicional loteria federal, mega-sena, quina, loteca, lotomania e, clandestino, mas totalmente dono do pedaço, o super-popular jogo do bicho. Nesse contexto dúbio, uma comissão de deputados federais vem discutindo, desde novembro passado, a legalização de bingos, cassinos, caça-níqueis, jogo do bicho e demais jogos de azar.
 
Não faltam razões aos defensores da legalização. Na época, a própria presidente Dilma vibrou com a idéia, porque seria a bem-vinda possibilidade de elevar de R$ 15 bilhões a R$ 32 bilhões a arrecadação federal, por meio de impostos e outros tributos, evitando-se, assim, a volta da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Por outro lado, entidades que representam os bingos vislumbram aí a reabilitação de cerca de 340 mil trabalhadores que perderam o emprego, desde que o bingo foi vetado. Alegam-se ainda outras duas razões pró legalização do jogo: ele é regular em 177 países e, mensalmente, 200 mil brasileiros demandam outros países, como o Uruguai, para jogar.
 
Em contrapartida, os opositores da legalização argumentam que o jogo, na verdade, não gera riqueza; antes, atrai sérios problemas, porque serve à lavagem do dinheiro, cria dependência, desestrutura famílias e, pelo volume de dinheiro que mobiliza, acaba até facilitando a ramificação do crime organizado.
 
Como se vê, o assunto é polêmico. Mas há jogo e jogo. Uma coisa é jogo como diversão; outra coisa, o vício do jogo. No primeiro caso, jogo é a mera entrega ocasional a determinado entretenimento; no outro, dá-se a subordinação permanente da pessoa ao sonho de ganhar dinheiro. Nesse caso, o viciado vive na gangorra da sorte e do azar, escravo das incertezas do acaso.
 
Essa doença acompanha a história da humanidade. Desde tempos imemoráveis se fabricam objetos de diferentes materiais representando figuras, números, letras ou cores, cujas combinações propiciam a fortuna ou a ruína do jogador. Esses objetos têm um nome dado -- e uma história também. É que os árabes costumavam desenhar uma flor, na língua deles az-zahr numa das faces do dado. No jogo, saindo esse lado, seria sorte; não saindo, azar!
 
Mas é necessário considerar que, além de dados, joga-se também, em família ou entre amigos, com cartas, damas, argolas e pedrinhas, sem esquecer as 16 peças do xadrez e a atração atual dos jogos eletrônicos. Tudo isso é puro divertimento, com sorte e com azar, sem delírios e sem dramas.
 
Bem outra a história de Alexis Ivánovitch, protagonista do romance O Jogador, retratado por Dostoievski, com traços autobiográficos. Vítima de uma paixão de amor avassaladora e da presença compulsiva na jogatina dos cassinos, só restava ao moço perguntar, como se lê no último capítulo do livro: "Quem sou eu agora? Um zero. Que vou ser amanhã? Amanhã posso ressurgir dos mortos e recomeçar a vida. Posso descobrir o homem em mim, antes que ele esteja perdido!"
 
Aldo Vannucchi é mestre em filosofia e teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFI) e reitor da UNISO - aldo.vannucchi@uniso.br
 
Conheça mais sobre o Mestre Aldo Vannucchi, em matéria especial deste mesmo site, no link: “Homenagem a dois sorocabanos ilustres - Steffen e Vannucchi


IDS - Instituto Defenda Sorocaba
Sergio Antonio Reze - Presidente




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