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A Corda, a Caçamba e o Casal 20
26/06/2016

Reprodução integral de texto do médico e professor Dr. Edgard Steffen, de sua coluna semanal do Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba e região, publicada no dia 25.06.2016.
 
Problemas sociais com nossos jovens parecem crescer na proporção em que decresce a importância da família na transmissão dos valores.
 
"Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convém." - Apóstolo Paulo (I Coríntios 6:12)
 
Edgard Steffen

 
Atendo o telefone. Do outro lado da linha José Simão, médico cardiologista atento ao que acontece nos ambulatórios onde trabalha, me questiona. Professor, estou preocupado com a volta do casal 20. O interlocutor faz parte daqueles colegas que ainda me tratam professor. Sabem que me envaidece a honraria, apesar da minha exígua participação nas respectivas formações em suas especialidades.

A expressão Casal 20 passou a ser usada, a partir dos anos 80, para designar pessoas que são vistas formando dupla quase inseparável e de grande projeção ou influência. Nasceu do sucesso da série Hart to Hart, criada pelo romancista Sidney Sheldon para a televisão americana. Conta aventuras do milionário Jonathan Hart (Robert Wagner) e sua esposa jornalista Jennifer (Stephanie Powers) que investigavam e resolviam crimes como detetives amadores. Como eram pessoas nota dez, Hart to Hart virou Casal 20 na TV brasileira. Muitos Jonatans e Jenifers passaram a figurar nos livros dos cartórios de registro, por influência dos personagens que viveram 110 episódios entre1979 e 1984.
 
Como se vê, o cardiologista usou a expressão para referir-se a doenças ou comportamentos que andam sempre juntos. Antes do advento da televisão, pessoas, hábitos ou fenômenos muito unidos eram designados "corda e caçamba". Caçamba era designação para o balde que, ligado à corda, servia para tirar água do poço.
 
Conhecendo o dr. José Simão, eu sabia que sua menção ao casal nada tinha a ver com saudosismos televisivos. Passada a surpresa, questionei "Qual casal 20?" A sífilis e a gonorreia. Essa criançada mal sai da escola primária e já está adquirindo doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). O estudioso cardiologista demonstra apreensão com o aumento dos casos e também se preocupa com a diminuição da idade dos infectados.
 
Esses problemas na puberdade e adolescência sempre existiram. Cresceram muito a partir dos anos 60 com a pílula e a revolução sexual e outros múltiplos fatores. No começo do presente século, artigo da revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (maio-junho, 2004) citava que, nos EEUU, a prevalência das DSTs estaria em torno de 25% e a faixa etária de maior risco seria de 15 a 24 anos. Nossa juventude continua imitando a América.
 
Sífilis e blenorragia (gonorreia) são DSTs tratáveis. A sífilis pela velha e boa penicilina benzatina. Para o gonococo, a penicilina já não serve; desde os anos 80 as cepas ficaram resistentes ao antibiótico criado por Fleming. Também as duas doenças são facilmente preveníveis pelo uso de camisinha. Esta, por sua vez, também evitaria a gravidez precoce. Uso o condicional "evitaria" porque pesquisas têm demonstrado que os adolescentes hormônios em plena efervescência nem sempre se protegem. A voracidade com que se entregam aos perigos demonstra que se julgam invulneráveis. Experimentam tudo que os desafia. Velocidade, drogas ilícitas (álcool incluso). Experiências sexuais entram no cardápio. E a propaganda oficial para o uso dos preservativos parece estímulo à vida sexual precoce. Da mesma forma que as DSTs, a incidência da gravidez extemporânea vem aumentando nestes dias em que qualquer exercício de autoridade é decodificado repressão. Repressão e censura são odiosas corda&caçamba.
 
Problemas sociais com nossos jovens parecem crescer na proporção em que decresce a importância da família na transmissão dos valores, recebidos por herança das gerações antecedentes. Nesta caçamba do vale e pode tudo cortaram a corda da prudência.
 
Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço - edgard.steffen@gmail.com


Conheça mais sobre o Dr. Edgard Steffen em matéria especial deste mesmo site, no link: “Homenagem a dois sorocabanos ilustres - Steffen e Vannucchi

IDS - Instituto Defenda Sorocaba
Sergio Antonio Reze - Presidente




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