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Ipanema Plus entrevista Sergio Reze
22/02/2016

Sergio Reze é entrevistado pelo jornalista e radialista Djalma Luiz Benette, o "Deda", com a matéria publicada na Revista Ipanema Plus, de Sorocaba e região, em sua edição II, de fevereiro de 2016, criação do Grupo Ipanema de Comunicação. Segue a íntegra da publicação.
 
A história do Brasil vista de dentro
 
Sérgio é o grande nome por trás da história da Abrão Reze, a principal concessionária de veículos Volkswagen, Audi e Hyundai de Sorocaba e região. Mas é também testemunha viva da história do Brasil, do desenvolvimento da indústria automobilística brasileira e das relações comerciais nacionais e internacionais que fizeram do Brasil o que é hoje. Nesta entrevista ele analisa o momento de crise pelo qual passa o Brasil e revela um otimismo contagiante: o Brasil é maior do que o buraco que cavaram em volta dele. Ex-presidente da Fenabrave (Federação Nacional dos Veículos Automotores) e da ASSOBRAV (Associação Brasileira de Revendedoras de Veículos Volkswagen) – mandato recém encerrado – é o atual presidente das DISAL (Empresa de Consórcio das Concessionárias Volkswagen) e do IDS (Instituto Defenda Sorocaba), Sérgio Reze é o único sorocabano que ao longo do período mais promissor da economia brasileira, que vai da implementação do Plano Real (1994) até os dias atuais, manteve certa intimidade com os últimos três presidentes da República: Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Roussef. Entenda um pouco mais do Brasil, desfrutando deste bate-papo com Sérgio Reze.
 
Deda: Com toda a sua experiência, neste ano vai completar 80 anos de idade, você passou por vários períodos importantes da história recente do Brasil: suicídio de Getúlio Vargas, o período de 64, a crise econômica nos anos 80 e 90, e agora em pleno século 21, este momento conturbado do país. Qual dessas é a pior dessas?

Sérgio Reze: A pior crise é esta que estamos vivendo. O Brasil sempre encontrou uma solução rápida para todas as crises. Na década de 30 com a chamada Aliança Libertadora, no primeiro período de Getúlio Vargas. Na década de 40, na segunda grande crise, o suicídio de Getúlio Vargas abriu caminho para a solução. Na década de 60, com o regime militar, o Brasil realinhou a economia. Na década de 90, depois da hiperinflação, o Brasil promoveu uma renovação econômica e financeira, saneou o sistema bancário, restabeleceu a confiança da população. A própria dívida que os municípios e os estados foi assumida pela Federação. O país se reorganizou. Tinha uma organização para você continuar com o crescimento do país.
 
Deda: Por que você usou o passado, o verbo “tinha”? O Brasil não tem mais organização para voltar a crescer?

Sérgio Reze: O que nós estamos vivendo hoje é um problema. Mas ressalta-se um fato muito importante: o Brasil é maior do que o buraco que foi cavado. Foi sempre assim. No buraco que cavam não cabe o Brasil, o que significa que o Brasil, depois de algum tempo, vai conseguir resolver o problema. Esse buraco que nós temos (uma crise econômica, financeira e política) foi cavado pelos políticos. Portanto, a política para tapar o buraco (e fazer com que o país volte a ser aquilo que era há 10, 12 anos) está na mão das mesmas pessoas que cavaram o buraco. Então, a expectativa, a visão que eu tenho, é de que nós vamos até 2018 nessa lenga-lenga.
 
Deda: Nós estamos no começo do ano. Temos de duas questões: o afastamento do presidente da Câmara e também da presidente da República. Você não acredita nem em uma coisa, nem outra?

Sérgio Reze: A pergunta é quem vai assumir essas vacâncias? Quem assume o lugar da Dilma? Quem assume o lugar do presidente da Câmara? O PMDB está, hoje, politicamente falando, em condições de assumir a presidência e tentar unificar as outras forças políticas? Não, o PMDB está brigando dentro dele. Você tem o lado daquele pessoal do Rio de Janeiro que quer tomar conta do PMDB, o que piora ainda mais a situação, e você tem o pessoal do Temer, que já é um pessoal mais equilibrado, com um tempo de experiência política-administrativa maior. Mas eles não têm acordo, podem aparentar um acordo, mas insuficiente para ocupar a vacância. E o nosso Legislativo? Me dá um nome capaz de assumir a Câmara dos Deputados e unificar as correntes, não unificar para votar a favor disso, a favor daquilo, mas de unificar para pensar no país. É preciso pensar no Brasil e nos seus trabalhadores e empresários. A Câmara e o Senado não demonstram capacidade de assumir esse projeto de tocar para a frente o Brasil. Por isso, embora não seja o meu desejo, vamos sofrer até a eleição de 2018 quando uma nova liderança terá que dar sentido a um novo caminho e confiança.
 
Deda: E o papel da Operação Lava-Jato neste contexto?

Sérgio Reze: Com a Lava-Lato o Brasil dá um passo a mais para consolidar a democracia e vai mandando para a cadeia quem precisa ser mandado em que pese muitos subterfúgios que a legislação permite para que fiquem de fora dela. De repente o Lula vai depor, mas não como testemunha, vai para esclarecer. Uma figura que não existe na Constituição. Tudo isso para proteger uma pessoa que está profundamente envolvida, eu não vou falar em matéria de dinheiro, vou falar em matéria política, profundamente envolvido nesse buraco. Todo o mundo que estava com o Lula está preso ou vai ser preso.
 
Deda: Você falou didaticamente sobre a crise política, mas citou também a econômica e financeira. Qual é a crise econômica e financeira que estamos vivendo?
 
Sérgio Reze: As crises econômica e financeira que o Brasil vive são pela falta de credibilidade dos políticos que governam o país, que fizeram o buraco que está ai. A dívida pública brasileira quando o presidente Fernando Henrique entregou o governo estava na casa dos R$ 700 bilhões. Quando ele assumiu essa dívida era de uns R$ 300 bilhões e pulou para R$ 700 bilhões, ou seja, mais R$ 400 bilhões. E por quê? Porque o governo federal assumiu a dívida dos Estados e dos Municípios. Ou seja, zerou as dívidas de Estados e Municípios que estavam afogados em dívidas, com os bancos estaduais quebrados. Quer dizer, Fernando Henrique tomou o dinheiro e emitiu títulos da dívida pública para arrumar essa bagunça que era a administração de todos, município, estado e federal. Arrumou. Jogou isso trinta anos para a frente. Eu não vou questionar se o juro da dívida é pesado ou não. Só estou dizendo que naquele momento FHC deixa o governo e uma dívida de R$ 700 bilhões. Ora, passaram-se 13 anos, a dívida pública está em R$ 2,5 trilhões e não está completa ainda, por causa das pedaladas que o governo fez. Só de juros, R$ 2,5 trilhões a 11% ao ano. Quanto é que o governo está pagando de juros? R$ 250 bilhões de reais por ano de juros. Você vê onde está metido o Brasil? Que buraco!
 
Deda: Você acha que essa visão de governo do PT que aumenta a dívida, como você colocou, ela é incompetência ou é uma decisão claramente tomada: quer dizer, um compromisso de dar, seja financiando o acesso a universidade, o bolsa família, subsídios no combustível, na energia elétrica. Ou seja, esse governo pensa: Eu dou porque as pessoas precisam. E o fato de o Estado não ter esse tamanho para pagar essa conta é, enfim, uma decisão e não incompetência. O buraco a gente vê como fica depois. É isso?
 
Sérgio Reze: Você tem razão. É uma decisão equivocada e incompetente. É a política do PT. É a visão deles para o Brasil. É a visão que eles têm que tomar de alguém para dar para outros. Mas de quem que eles estão tomando? É dos mesmos que eles estão dando. Ai está a encrenca porque chegou o momento que o governo não tem mais recurso para sustentar essa visão de Brasil. E ninguém cede um milímetro daquilo que conquistou. São os direitos adquiridos. O congresso tem direitos adquiridos como verba de gabinete. Vai para a Justiça é a mesma coisa. Vai para o sindicato, a mesma coisa. Todo o mundo tem direitos no Brasil. Agora eles não percebem que o direito individual é coberto por quem? É coberto pelos impostos que você e qualquer trabalhador deste país paga. O camarada pensa que quando ele compra uma garrafa da água o ladrão é o comerciante que vendeu a garrafa de água pra ele, que tem quase 70% de imposto. Ele pensa que é o comerciante. Não, não é. O ladrão é o governo. Agora quer botar mais a CPMF e vai pra quem esse dinheiro? Vai para o governo. Esse tipo de governo, como o do Brasil desses últimos 13 anos, não analisa as consequências dos atos que ele faz. Mas um dia a conta chega e ela está ai. Por isso eu digo que essa é a pior crise que vivemos.
 
Deda: O governo do PT está distribuindo uma renda que ele não tem, é isso?

Sérgio Reze: É isso. Essa é a lógica. Agora ressalto que esse tipo de governo não distribui a renda. Imagine o regime comunista com a seguinte conduta: toma de quem tem. Mas ai um sujeito tem quatro casas. Ele pode ficar com uma e as outras três serão divididas com o povo, com quem não tem. Isso é uma balela porque fica tudo para o Estado e ninguém fica dono de nada e o governo é o único que usufrui. O dinheiro público não é do governo. O governo toma de você, de mim, de todo o mundo e não faz o que manda a Constituição porque ficou maior do que é capaz de se sustentar.
 
Deda: Você tocou em um ponto que eu acho dos mais preocupantes do Brasil. Estamos quebrados e podemos recomeçar ou é o fim?

Sérgio Reze: Olha... (pausa) Existem situações que me fazem crer que chegaremos ao ponto crítico: do cidadão não pagar mais nada. Você imagina?
 
Deda: Você tocou em outro ponto que julgo muito crítico. O quanto o cidadão é ignorante do que seja viver em sociedade e do papel do governo nessa equação. Você falou do cidadão que ignora o imposto da água. Uma triste realidade. Você acha que a educação pode salvar o Brasil?

Sérgio Reze: Olha, não sei se isso seja falta de educação. É da cultura. Eu sei, você sabe, o outro sabe, as pessoas sabem disso tudo do imposto, mas passam ao lado. O brasileiro acha que não é com ele, mas é um problema dos políticos. As pessoas acham que a coisa pública não é dele, mas do político. Ai é um problema de educação! Acho que é de uma cultura que se muda de várias formas, também pela educação.
 
Deda: Nenhum governo quer mudar isso?

Sergio Reze: Até agora, nenhum. Vou dar um exemplo prático e do nosso cotidiano sobre esse desarranjo: a polícia. Nós temos praticamente nas cidades, inclusive em Sorocaba, de três a cinco polícias. Você tem as polícias Civil, Militar, Ambiental, Científica e a Guarda Civil Metropolitana, que foi feita para tomar conta dos próprios municipais e hoje atua como força militar armada. Como você racionaliza o entrosamento das ações policiais? Com cinco polícias? Com cinco chefes? Como é que faz? A dificuldade de comunicação torna o gerenciamento incapaz e ineficaz. A Polícia Civil atua dentro da capacidade dela e procura atuar bem, a Militar procura atuar bem. Eu não critico a polícia, o órgão policial, eu critico a estrutura que foi criada. Ninguém imagina uma empresa que tem seis comandos no rumo do sucesso. É certeza que será incompetente e sem eficácia.
 
Deda: Agora Sérgio, você é um empresário de sucesso no seu ramo de atuação em Sorocaba, você ficou 40 anos na liderança do seu setor em âmbito nacional, também com sucesso, e ai você decide criar o Instituto Defenda Sorocaba. O que é que você buscou nessa terceira fase da sua vida?

Sergio Reze: Eu tentei racionalizar. Tentei fazer com que as lideranças política, empresarial, quando digo liderança política, não é partido A, B ou C, liderança de pessoas que têm a capacidade de se manifestar. Pode ser de partido ou não. A liderança política, a liderança pública, os órgãos municipais, as associações de Engenheiros, Advogados, Arquitetos, Médica, enfim, todos esses que consolidam opiniões e posições. São instituições que conhecem muito bem aquilo que fazem. Ora, se você puder fazer o que essas instituições se conversem num fórum, você acaba encontrando soluções, visões, que ajudam o prefeito, a Câmara de Vereadores e outras entidades da cidade, que tenham a obrigação de governar a cidade, você consegue fazer com que se pense com mais razoabilidade.
 
Deda: Dê um exemplo.

Sergio Reze: Um exemplo? O Defenda Sorocaba está procurando trazer as universidades de Sorocaba para um debate para construir um espaço onde as universidades de Sorocaba possam oferecer seu conhecimento. Você ouve falar que a saúde de Sorocaba tá mal, Sorocaba tem uma faculdade de Medicina. Ouve falar que a Santa Casa tem problema. Algum dia houve uma consulta, discussão com a Faculdade de Medicina de Sorocaba sobre o tema da saúde de Sorocaba? Não. Mas são eles que conhecem, que entendem do assunto, não são? O Defenda Sorocaba tem a pretensão de colocar todos numa mesma mesa para que as decisões deixem de ser unilaterais quando ela exige uma visão múltipla.
 
Deda: Você faz qual avaliação desse momento de Sorocaba? Você acha que está bem servida, tem que mudar?

Sergio Reze: Na minha avaliação, Sorocaba teve muita sorte. Desde Armando Pannunzio, lá atrás, Crespo Gonzales, essa turma que veio, Sorocaba teve muita sorte. Olha, nós conseguimos organizar algumas reformas na cidade que permitiu o desenvolvimento da cidade. Olha a Zona Industrial de Sorocaba que exemplo. Ela permitiu que Sorocaba avançasse. Era refém de um setor, uma monoempresa, conhecida como Manchester Paulista, porque fazia só tecido. Tinha crise no setor de tecido parava a cidade. Olha a diversificação que a partir de Armando Pannunzio se conseguiu. Por que fizeram isso? Porque ele criou uma zona industrial, uma política de atração de indústrias e de comércio para Sorocaba que fez com que Sorocaba pulasse daquilo que era Manchester paulista para uma cidade industrial, com indústrias de peso, que hoje dão todo esse suporte para o desenvolvimento da cidade. Nós tivemos muita sorte. Até agora a cidade está vencendo. Lógico que tem falhas, mas isso não é da pessoa, isso é da estrutura política que existe. Então a estrutura política, às vezes, amarra as mãos do prefeito, seja ele qual for.
 
Deda: Você se dedicou ao seu setor e ao seu negócio. E a política foi tomada, principalmente no âmbito nacional, por pessoas que hoje a gente percebe que não tem esse comprometimento público. Você aconselha um filho, um amigo a entrar na política? Se filiar a um partido e se candidatar?

Sérgio Reze: Meus filhos eu não aconselho a entrar na política. Porque você ainda não tem muita clareza de regras, você não tem ainda um Congresso que tenha
regras de atuação que permitam ao bom político aparecer. Você não tem no órgão judiciário que permite uma boa pessoa trabalhar sem que seja envolvido em malfeitos de outro. É a mesma coisa quando você desce para os estados e para o município. Esse é um problema. Você tem uma estrutura que está manietada, eu participei como presidente da Fenabrave no governo de Fernando Henrique Cardoso do início da chamada reforma tributária e reforma política. Foi feita alguma coisa disso? Nada, nada. Fui do Conselhão do Lula e da Dilma. Serviu para alguma coisa? Para nada. A estrutura envolve quem está no poder de tal maneira que nada do que é para andar, anda.
 
Deda: Por que não deu em nada?

Sérgio Reze: Porque é um fórum de egos. E o tipo de participantes, com raras exceções, reflete o que acontece no Congresso Nacional, ou seja, na sociedade. Então você tenta ser muito democrata e você coloca uma série de pessoas lá que entram, são recebidos e... Nada.
 
Deda: Você tem esperança?

Sérgio reze: Eu acabei de dizer pra você que o Brasil é maior que o buraco. Sou otimista sim. Em algum momento vai acontecer. A minha expectativa nesse momento, nessa crise, é que ela se resolva em 2018 quando teremos eleições. Ai vamos ver quem vai surgir como candidato da situação. O Lula? E o que a oposição vai oferecer ao Brasil? Não é só mudar o presidente da República. Tem que mudar também o Congresso. Não é possível metade do Congresso Nacional esteja processado por mau uso do dinheiro público. O cidadão precisa escolher cabeças novas, que deem credibilidade. É só isso que o país precisa hoje para avançar com qualidade.

IDS




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