Pesquisar

Importantes fomentadores da educação
17/11/2015

Transcrição integral de editorial do Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba e região, do dia 17.11.2015, abordando o tema “Importantes fomentadores da educação” (Observação nossa).
 
Gesto nobre
 
A atitude do escritor Raduan Nassar, que doou uma fazenda produtiva na região de Buri, no sudoeste do Estado de São Paulo, para a criação de um campus avançado da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), é daqueles gestos raros de altruísmo, pouco comuns em nosso País. Nassar, escritor bissexto e premiadíssimo, abriu mão de sua propriedade para que ela se tornasse uma instituição de estudos e pesquisas para contribuir com o desenvolvimento econômico e social dos municípios em seu entorno. Avesso à publicidade e exposição na mídia, ficamos sabendo por meio de seu assessor de imprensa que o escritor fez a doação por gratidão ao que a região havia lhe proporcionado. Nassar tentou doar a fazenda inicialmente à Universidade de São Paulo (USP) e uma comissão da faculdade de Agronomia deu parecer favorável, mas o governo estadual da época teria rejeitado a ideia. Procurou então a UFSCar por sugestão de amigos e o projeto deu certo. A doação da fazenda e o sucesso dos primeiros passos do campus foram retratados no último Caderno de Domingo do Cruzeiro do Sul, com texto da repórter Ana Cláudia Martins e imagens de Emidio Marques.
 
Inaugurado em 26 de junho de 2014, o campus recebeu o nome da antiga fazenda, Lagoa dos Sinos, a pedido do escritor, e oferece três cursos de graduação: Engenharia Agronômica, com ênfase na agricultura familiar; Engenharia Ambiental e Engenharia Alimentar. Hoje, a unidade conta com 250 alunos matriculados nos cursos que têm duração de cinco anos, todos em período integral. Para o próximo ano letivo são esperados 500 alunos no campus, que fica a seis quilômetros de Campina de Monte Alegre, na macrorregião de Sorocaba. Ao fazer a doação, Raduan Nassar pediu também que algumas construções da propriedade, entre elas a casa principal, fossem preservadas e são nesses locais que hoje funcionam as salas de aulas, sede administrativa, laboratórios, biblioteca e restaurante universitário.
 
O gesto do escritor é raro no Brasil, mas comum em vários países. Nos Estados Unidos, onde a primeira universidade surgiu no final do século 17 - ao contrário das nossas que foram criadas tardiamente no século passado - várias delas foram criadas com doações de milionários. Há o caso que resvala para o folclore sobre a doação que um casal vestido humildemente quis fazer para a Universidade de Harvard. Eles queriam doar um prédio para a instituição onde um filho já morto havia estudado. Diante da empáfia do presidente da entidade que duvidava que o casal pudesse fazer qualquer doação de vulto e ao saber que todos os prédios de Harvard custavam US$ 7,5 milhões de dólares, acharam mais produtivo fundar uma nova universidade para homenagear o filho, e assim surgiu Stanford, referência de qualidade de ensino na Costa Oeste norte-americana. Em Sorocaba, outro exemplo raro foi a doação por parte da família Scarpa do prédio da Avenida General Osório para a criação de cursos de nível superior, embrião da Uniso. Lá funcionaram durante anos as Faculdades de Filosofia Ciências e Letras e de Administração de Empresas. Doações da família Ermírio de Moraes também ajudaram a consolidar o projeto de criação da Faculdade de Medicina de Sorocaba, hoje administrada pela PUC-SP (Destaque nosso).
 
José Sartarelli, um brasileiro que depois de ter uma carreira de sucesso no mundo empresarial tornou-se reitor de universidade nos EUA, diz que os ricos deveriam doar parte de suas fortunas para a educação, seguindo o exemplo dos americanos. José "Zito" Sartarelli, natural da cidade paulista de Ribeirão Bonito, reitor da Universidade da Carolina do Norte Wilmington (UNCW), é tido como o primeiro brasileiro a dirigir uma universidade naquele país (Destaque nosso). Segundo ele revelou recentemente ao site BBC Brasil, muitos brasileiros ricos agem como se fossem levar à tumba todo o dinheiro. Ele defende que universidades se aproximem de empresas e diz que o Brasil abriu mão de investir em centros de excelência, o que terá um alto custo no futuro. Por aqui, embora incipiente, já existe um debate sobre o financiamento de universidades brasileiras com recursos de ex-alunos e empresas. A prática comum nos EUA, onde os fundos, chamados de endowments, chegam a reunir mais de US$ 30 bilhões, como é o caso de Harvard. Como se vê, o Brasil tem muito a aprender muito com o gesto de Raduan Nassar.
 
IDS

 




Sobrepor o mouse nas imagens exibe as legendas. Clicar sobre elas mostra ampliação.




« Voltar