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Crônica de Edgard Steffen
17/08/2015

Reprodução integral da crônica do médico Edgard Steffen, publicada em sua coluna do Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba e região, no dia 15.08.2015.

Crônica “Das razões para gostar de agosto”.


Gosto que me enrosco deste ventoso mês. Em agosto cheguei por aqui a fim de me preparar aos vestibulares de Medicina. Formado, trabalhei quase dois anos fora e voltei para cá. Para mostrar que não sou supersticioso regressei numa quarta-feira, 13 de agosto (1958).

Por que será que gosto tanto deste mês? Poderia até ser pela rendição do Japão e consequente fim da Segunda Grande Guerra. Mas no agosto de 1945 houve o sacrifício de gente como a gente. Cidadãos comuns foram torrados pelas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki. Duas desumanidades que iniciaram nova era de grandes progressos para a humanidade. Os sobreviventes amargaram câncer de pele e do sangue. Mas também eventos bons aconteceriam. Entre as coisas boas da Física Nuclear viria a Medicina Nuclear que passou a dar esperança de vida e saúde a portadores de certos cânceres. Os estragos causados por Little Boy e Fat Man* marcaram o início de uma nova guerra a Guerra Fria de onde resultariam sanguinárias lutas como as da Coreia e Vietnã e conflitos menores que levariam ao poder Fidel Castro (nascido aos 13/08/1926) e outros ditadores de esquerda, e regimes totalitários de direita como o Brasil de Costa e Silva, o Chile de Pinochet e a Argentina de Jorge Rafael Vidella (nascido aos 12/08/1925).
 
Poderia minha agostofilia advir do 24/08/1954 encerramento da Era Vargas? Como a maioria dos universitários, torci para que o caudilho gaúcho caísse. Jamais festejaria sua saída "da vida para entrar na História" por um tiro no coração. Agosto de 54 teve dias tão conturbados quanto os que estamos vivendo. Um presidente acuado pelas besteiras que seus aliados fizeram.
 
 
Quero ver nossa presidenta-gerenta pagando a língua por deslavadas mentiras, faladas ao vivo e a cores, para espichar o mandato. Espicha-mento que pode resultar em impeachment. Esta solução não é a que eu desejo. Como brasileiro, torço para que o País reencontre seu caminho de paz, emprego e desenvolvimento com estabilidade monetária e, pelo voto, sejam escorraçados os que deixaram o Brasil em situação de quase insolvência.
 
Também não posso estar alegre pelos belos dias de sol e vento. Já não tenho mais idade para soltar pipas. Nem fui muito fanático pelas pandorgas. Nos idos da infância, papagaios eram inocentes brinquedos artesanais e não armas cortantes. Mortais por vezes. Sem cerol ou pó chileno, as linhas eram frágeis fios surrupiados dos carretéis das costureiras domésticas. Prefiro chuvas. Adulto, consciente da crise anunciada da falta de água em vários cantos do Brasil, preocupo-me e torço por dias frios e chuvosos, que reponham águas perdidas e umedeçam campos livrando-os dos incêndios.
 
Na verdade gosto de agosto por razões pessoais e familiais. Duas netas e a única irmã que me restou são nascidas no mês dos ventos. Comecei a me tornar sorocabano ao iniciar' em agosto, namoro com bela filha da Terra Rasgada. Lá se vão 62 anos, quatro filhos e oito netos. Em 16 de agosto de 1856, o brigue Johanna Elizabeth, saído de Hamburgo, aportava em Santos. Na lista dos passageiros Hans Hinrich Steffen, meu bisavô, patriarca dos Steffen de nossa linhagem. Noventa e quatro anos após, no mesmo 16 de agosto, o ônibus expresso de Campinas despejou este escriba no Largo do Mercado. Começou neste dia minha própria história de sorocabano por adoção.
 
(*) Nomes dados às bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, respectivamente.
 
Sorocaba, agosto de 2015
 
Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço - edgard.steffen@gmail.com

Conheça também a homenagem a ele feita, exibida neste site, em: http://www.defendasorocaba.com.br/noticia/65-homenagem-a-dois-sorocabanos-ilustres-steffen-e-vannucchi

IDS




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