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Crônica de Aldo Vannucchi
17/08/2015

Reprodução integral da crônica do Professor Aldo Vannucchi, publicada em sua coluna do Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba e região, no dia 15.08.2015.

Crônica “Nossas Ru(g)as”.


Você sabia que rua vem do latim ruga? Pois é, como no rosto se formam rugas, assim também a cidade se forma com ruas, verdadeiros sulcos rasgados no tecido urbano. Por outro lado, sem rugas ou com rugas, a face é sempre o espelho da alma, assim como as ruas, bem ou mal cuidadas, revelam o perfil e a história da cidade.
 
Neste aniversário de Sorocaba, acho interessante contemplá-la a partir de suas ruas. São mais de seis mil, a maioria pavimentada com asfalto, lajotas e paralelepípedos, e umas cento e trinta, coitadas, ainda amargando a vida em terra, no barro e na poeira. Mas todas elas falam. Falam pelas suas árvores e pelos seus buracos, pelo casario e pelo trânsito, pelo lixo e pelas floreiras, pelos grafites e murais, pelos postes e pelas placas.
 
Fico, hoje, com as placas. Por elas, dá para saber muito da cidade e até do mundo. Sobre Sorocaba é possível conhecer importantes capítulos de sua história, focalizando nomes e datas marcados por ruas e avenidas, como a Baltasar Fernandes, a Brigadeiro Tobias, a 3 de Março e a 15 de Agosto. Mas a gente também pode voar longe, ao se deparar, por exemplo, na Vila Santana, com uma despretensiosa via pública identificada como "Rua Frederico Ozanan - Herói da Caridade Universal". Sabe quem é? Sorocaba deve muito a ele. Ozanan, em 1833, fundou com um grupo de jovens universitários, em Paris, as Conferências Vicentinas, movimento católico atuante no mundo inteiro, com visitas sem anais a famílias carentes, e aqui mantém o nosso Asilo São Vicente de Paula, que completará 120 anos, em 2016. Vale a pena conhecer a biografia desse herói, doutor em Direito e em Letras, professor da Sorbonne exemplo de batalhador pela prática da justiça e do efetivo amor ao próximo.
 
Como se vê, placa de rua ensina muito. E o faz pelo melhor dos métodos pedagógicos, socraticamente, provocando perguntas que nos induzem a boas descobertas. Para mim, um caso típico e bem nosso está no bairro da Aparecidinha, na "Rua do Terço". Fico me perguntando por que do terço? Seria devido à prática dessa reza, estimulada pelo santuário ali por perto? Mas a internet me diz que há rua com esse mesmo nome no Rio de Janeiro e em Passo Fundo.
 
Vejo, porém, outras placas com denominação bastante fácil, como é o caso da Rua da Penha, tão central e assim chamada sei lã por quê. Diga-se o mesmo da Rua do Zico, em Santa Rosália. Quem foi esse seu Zico?
 
Felizmente, temos placas de belo conteúdo auto-explicativo, como no Jardim Santa Fé, cortado pelas Ruas Fé, Esperança e Amor, e, em outro canto da cidade, a gente se surpreende com Rua Eufrates e Rua Tigre, dois rios que regavam o paraíso bíblico, lá na distante velhíssima Mesopotâmia. E ninguém se lembrou de emplacar por aqui a Rua Nilo, o mais extenso de todos os rios do mundo. Mas essa omissão é compreensível. Não existe cidade que consiga homenagear a todos e a tudo, por mais ruas que abra, assim como na face humana jamais irão caber todas as inevitáveis rugas do tempo.
 
O professor Aldo Vannucchi é ex-reitor da Universidade de Sorocaba - UNISO - e escreve aos sábados neste espaço - aldo.vannucchi@uniso.br

Conheça também a homenagem a ele feita, exibida neste site, em: http://www.defendasorocaba.com.br/noticia/65-homenagem-a-dois-sorocabanos-ilustres-steffen-e-vannucchi

IDS




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