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Que Sorocaba você quer?
02/07/2015

Que Sorocaba você quer?
 
Sob a indagação “Que Sorocaba você quer?”, a Arq. Isadora Castelli Garcia publicou no “Youtube” o vídeo utilizado no seu “TFG”.
 
Você pode apreciar o conteúdo no link: https://www.youtube.com/watch?v=5ofXW7FJ2pU
 
O texto que segue, da Arquiteta Isadora, está diretamente correlacionado.
 
"Milhares de pessoas amam a cidade em que vivem! Você já reparou onde mora? Ou está sempre muito ocupado pra dar uma olhadinha em volta?
 
Você não é o único. Sorocaba é a décima maior cidade do país com relação veículo/habitantes! A média do sorocabano no transito é de 40 min entre casa e trabalho, e a do paulistano são 3horas.Vamos esperar chegar a esse ponto?
 
Quer saber porque o transito aqui não está tão ruim?
 
Imagine um estádio de futebol, com suas largas portas de entrada. Mesmo sendo enormes, na saída do jogo, ficam lotadas! E com o transito acontece o mesmo!
 
Em São Paulo a densidade demográfica é bem maior do que a de Sorocaba. O que significa, que num pedaço de terra, onde em Sorocaba mora uma família de 4 pessoas por exemplo, que teria no máximo quatro carros.
 
Em São Paulo no mesmo pedaço de terra existe um prédio! Com muitas e muitas famílias empilhadas uma sobre as outras.
 
Morar num prédio significa morar coletivo, o pedacinho de terra que uma pessoa ocupa em quanto dorme é cerca de 1m², quando entra em seu carro de 2x4m, são 8², ocupa muito mais espaço. E se a média de habitantes for de 4 pessoas por apartamento, um carro por pessoa, 4 aptos por andar, num prédio de 10 andares, isso significa 160 carros.  É físico, não cabe. Por isso é tão difícil falar em morar coletivo e em transporte individual.
 
A cidade é um espaço compartilhado do qual podemos tirar muito proveito em relação a diversidade. Mas esse morar coletivo envolve muito mais do que vantagens.
 
Qualquer transito tem o potencial para enlouquecer! Sem falar na fumaça proveniente dos escapamentos que inspiramos diariamente. Respirar o ar da capital é equivalente a fumar dois cigarros por dia. Segundo pesquisa da USP a poluição atmosférica vai matar até 256 mil pessoas nos próximos 16 anos no Estado de São Paulo.
 
Pessoas estressadas cobrando a eficiência do transito de si próprias. Ou vai me dizer que ao ver o sinal amarelo você não acelera?
 
Como as portas dos estádios nossas ruas, mesmo sendo enormes, parecem insuficientes para o alto numero de carros.
 
O que fazer em relação ao transito de automóveis que piora a cada dia? Retirarmos calçadas? Cobrirmos nossos rios?  Destruirmos espaços de lazer e convívio? Sobrepormos vias? Será que esse é o melhor caminho?
 
A cidade de Bilbao, na Espanha discorda. Na via Sabino Arana havia um minhocão, que foi retirado, para devolver a qualidade de vida urbana para seus cidadãos. Precisamos lembrar que em primeiro lugar as PESSOAS, afinal o carro surgiu para melhorar a qualidade de vida delas. Uma cidade que é feita só pra passagem inviabiliza encontros.

Mais exemplos? Rios que voltam a ser abertos. Como o rio Cheonggyecheon e Han (tchon gui tchon irran)  em Seul, ou os canais de Copenhagem. Afinal de contas a agua também é área de convívio e lazer, não deveria ser tratada como esgoto.  Sem contar que o transporte fluvial é um dos mais vantajosos, afinal não é preciso recapear o rio, nem trocar pneus, o atrito entre a agua e o barco é mínimo, em termos de manutenção é das mais vantajosas.
 
Entendendo um pouco a questão do rio! Pela gravidade a agua sempre corre para a superfície mais baixa. Se canalizarmos o leito natural do rio, a princípio ele está confinado, mas continuará sendo a parte mais baixa da topografia, o que significa que quando chover, é pra lá que a agua vai.  Logo, cobrir o rio, não resolve o problema! Quando chove, ele transborda, e temos enchentes. Como jogamos lixo nos nossos rios, esse lixo também transborda.
 
Então começamos a buscar soluções absurdas para o resolvermos consequências das más decisões. Como tapar o sol com a peneira sabe? Surgem os piscinões subterrâneos, para não ocorrerem alagamentos, e muretinhas ao lado da marginal, que não impedem que a água passe.
 
Os problemas saem temporariamente da frente dos nossos olhos, mas continuam a existir.
 
O que era pra ser sinônimo de liberdade e rapidez, se torna “preso no transito”! Você acaba preso, fechado, isolado, sem contato humano. As vezes tem um amigo do seu lado, mas nunca vai saber, porque você esta lá dentro, trancado, blindado da vida, do clima, do cheiro, das amizades, talvez por isso nem se importe mais se a cidade a bela ou fedida, você não sente, não usa.
 
Sai da bolha da sua casa, vai pra bolha do escritório e a bolha do shopping, e o resto? E o que está acontecendo e volta? E a diversidade da vida em sociedade?
 
É preciso ir à padaria pra ver gente? Isso é algo curioso! Meu pai vai todos os dias a uma padaria tomar café. Mas ele não vai só tomar café, vai ver gente, encontrar pessoas, que não são tão amigas, mas também não tão distantes, as vezes conhece gente nova. E o espaço de convívio! Que a cidade não oferece! É preciso consumir pra conviver.
 
Não falamos mais “vamos sair?”. Já falamos “vamos jantar em algum lugar” consumo virou rotina, e lazer virou consumo.
 
Precisamos de padarias para conhecermos nossos vizinhos? Quando vamos parar de destruir os espaços de convívio e de qualidade de vida para criar passagem para os automóveis? Poluidores! Que nos fazem verdadeiros reféns.
 
E muitos começam a aceitar como se fosse o preço do progresso. Começamos a comer no carro, ler livros, se trocar, ver filmes. O que aconteceu com os espaços? Vamos viver enlatados?
 
Devolva a vida seu sentido, cheiros e sabores, vamos sair fora dessa prisão do ar condicionado, dessa lata individualista e sentir melhor o que o mundo lá fora pode oferecer.
 
Se depois de tudo isso você ainda achar vantajoso ler no carro, estacione numa vaga e fique lá dentro, mas vamos fazer cidade para todos, inclusive pra aqueles que preferem ver a vida do lado de fora.
 
O que é arquitetura? Se não é dar forma física aos usos, e necessidades das pessoas?
 
É preciso modelar essa forma de vida contemporânea, de tecnologia, espaços compartilhados, para mistura de idades, trocas de ideias, que também possam trocar de uso, assim como a tecnologia troca sua forma e função o tempo todo.
 
Espaços que possibilitem diversas atividades acontecendo ao mesmo tempo. Não específicos para uma única função, mas que se transforme, que uma hora passe o carro, o esqueitista, outra hora a marchinha do carnaval ou mesmo os tropeiros, espaços que atendam a diversidade e a coletividade.
 
Híbridos ou multifuncionais, não importa o nome. Um espaço que as vezes se parece com nada, mas que pode ser tudo! Como um palco. Afinal de contas a cidade é o palco das ações humanas. Nesse habitat coletivo que geramos o que somos. Onde criamos identidade. Que Sorocaba você quer?"

 
IDS




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