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O saber e o sabor da educação
02/05/2015

Transcrição da íntegra de texto publicado na coluna “Opinião/Artigo”, do Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba e região, na folha 2 do caderno A, do dia 30.04.2015.

O saber e o sabor da educação.

Sergio Antonio Reze.

Frequentemente, como observador da vida, falo sobre o comportamento das instituições em nosso país. Sempre, minha grande dificuldade, é encontrar uma delas que tenha ao menos razoável funcionalidade, ou seja, que cumpra o seu papel e não irrite o cidadão, seja ele um consumidor ou usuário dos serviços.
Às vezes penso em me deixar seduzir pelo lugar comum e culpar a natureza do homus brasiliense. Mas é um raciocínio tão limitado, simplista, que não justifica essa ausência de razoável funcionalidade de nossas instituições.

Enfrento esse impulso inicial e concluo que é óbvio que nós, brasileiros, não somos, como pessoas, diferentes de outros seres criados por Deus. O que realmente modifica o caráter das pessoas é a construção desse caráter. E isso é feito nos dias de hoje em grande parte pela escola e em pequena parte pela família.

Venho de um tempo em que a família não alfabetizava, mas educava os filhos formando o seu caráter. Isso valia para as crianças e seguia valendo quando já eram adolescentes. Ou seja, a escola era uma instituição que tinha a responsabilidade de alfabetizar as crianças e adolescentes e, também, de completar a moldagem do caráter de seus alunos de acordo com os valores que vinham da família.

Deixo aos historiadores identificar e registrar o exato momento da vida pública e política brasileira em que os mestres educadores perderam a importância perante a sociedade. Mas não me furto de lamentar que isso aconteceu da década de 60 para cá. Me recordo, nos anos 50, quando ainda vestia calças curtas, de alguns professores que ao seu tempo foram muito importantes na minha formação e da centenas de outros jovens e crianças: Professor Pascoaliki, Júlio Bierrembach, Vitor Stroka, Dulce Pupo, Roque Ayres de Oliveira, Arthur Fonseca, Nelson Guedes, professor Nunes, professora Ana Ferreira Leão e o professor de Canto Ofeônico João Mentone. A lista é bem maior. Me desculpem os não citados.

Asseguro a vocês, o que se via nesses mestres é que perante a chamada “sociedade” eles eram tão valorizados e reconhecidos como importantes autoridades públicas, tendo o seu próprio status quo e, asseguro, de mesma equivalência que tinha um juiz, um promotor, um procurador, um vereador e um prefeito, dada a importância do seu saber e a capacidade de transmissão desse conhecimento. Daí meu apelo para que os historiadores identifiquem a partir de qual momento o mestre deixou de ser valorizado e se entenda o que deve ser feito para corrigir esse erro.

Hoje em dia, via o farto noticiário que nos assola diariamente, tenho visto cenas que seriam inimagináveis naquele tempo. Nenhum pai se permitia fazer uma afronta a um mestre por ter repreendido o seu filho por algum mau comportamento dele. O princípio da autoridade que começava em casa moldando o caráter do filho, fosse criança ou adolescente, era mantido e respeitado na escola.

Arrisco a dizer que a permissividade com que os pais passaram a educar seus filhos foi a porta de saída/entrada para que a juventude, já se tornando cidadãos adultos, entendessem que tudo podem, perdendo o respeito pela vida em conjunto dentro de uma sociedade. Resultado: a absoluta ausência de cidadania. A questão diante deste quadro é uma só: como corrigir o rumo futuro dessa relação?

Como empresário, com uma experiência de mais de 50 anos no comando de empresas e associações que representam um setor de nossa economia, afirmo que um primeiro passo é o de dar foco na escola. É a escola que terá força para influenciar na formação da família do futuro e, com isso, é preciso valorizar o que faz com que uma escola seja viva: os seus professores. Apenas mestres capazes e motivados conquistarão seus alunos. Para isso o primeiro passo é o de sua valorização.
Novamente recorro à minha experiência, já citada, para dizer que essa valorização requer dois pontos bastante distintos e complementares.

Primeiramente não basta somente aumentar o salário do professor, mas dar a ele uma carreira como a de um Juiz de Direito, por exemplo. Um professor precisa saber que caminho vai percorrer até uma aposentadoria digna.

Por fim, é preciso professores preparados para lidar com a inovação. Naquele tempo por mim recordado, quando eu ainda vestia calças curtas, o professor detinha o conhecimento e estava nas mãos deles, ou melhor na ponta do seu giz, na lousa, passar o que sabia aos seus alunos. Hoje em dia esse conhecimento está nas pontas dos dedos de qualquer criança e seus smartphones. Mas o Saber, aquele mesmo de décadas atrás, ainda hoje segue no coração dos bons professores. Não há tecnologia que tire do professor o saber e o sabor de interagir com seus alunos.

Fica aqui o desafio lançado. Que ele seja uma luz aos dirigentes políticos de nossa cidade e quem sabe do Brasil, onde, enfim, temos alguém que entende do assunto no cargo de ministro da Educação.

Sergio Antonio Reze é presidente do Instituto Defenda Sorocaba

IDS




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