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Um Grito de revolta
03/03/2015

Transcrição da íntegra de texto publicado na coluna “Opinião/Artigo”, do Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba e região, na folha 2 do caderno A, do dia 01.03.2015.

"Nas cidades da Europa, a embriaguez ao volante de um automóvel de cara dá a esse mau condutor uma multa de 5 mil euros (algo em torno de R$ 15 mil) e prisão."
 
Um Grito de revolta
 
Como observador da vida em algumas regiões do mundo, inevitavelmente sou obrigado a fazer comparações com a minha terra natal: o Brasil.
 
Nas coisas mais simples do dia a dia se observa nos países da Europa e nos Estados Unidos uma racionalidade que no meu entender é conseguida com uma expressão simples: foco. Por que essa expressão? Nós sabemos que quando se foca adequadamente um objetivo, seja ele qual for, se identifica o que é necessário para atingir esse alvo e são colocadas em prática ações para alcançar com eficiência e rapidez o resultado desejado. Conseguido isso, pode-se dizer que o trabalho foi eficaz.
 
Lendo as crônicas e reportagens diariamente de nossa cidade e de nosso país, sob qualquer ângulo que se coloca os olhos, percebo que nada funciona. Será que o homem brasileiro é um ser inferior? Obviamente não. Exemplos muito evidentes desta minha certeza são os mais diversos.
 
Pessoas aqui nascidas e educadas atingem postos muito importantes no contexto do seu trabalho em empresas multinacionais, na política, em universidades ... Aquela afirmativa de que o sol dos trópicos chega a transformar a maneira do homem brasileiro de ver as coisas não é verdadeira, portanto. Mas a minha procura é por entender a complicada vida brasileira em todos os níveis e, em especial, no que ela diz respeito à vida pública e atinge direta e indiretamente o cotidiano de cada um de nós em seus mais variados níveis.
 
Vejamos: logo após a troca de comando no Congresso Nacional, uma propaganda político-partidária manifesta um “agora vai” como se houvesse uma mágica na troca de uma pessoa por outra. Será que o Congresso Nacional até quarenta e oito horas antes era formado e dirigido por pessoas incapazes e que não sabiam o que fazer? E a grande questão, possível de ser observada no noticiário é: por que nada funciona na política, justiça, segurança pública, educação, trânsito, sistema elétrico, telefonia, empresas públicas, transportes ... etc. e o cidadão aceita tudo passivamente? O tal “agora vai”, quando a questão é o que o Estado devolve ao cidadão, não faz parte da sua crença.
 
Alguns exemplos disso tudo que estou falando:
 
1 - Quando um Cidadão recorre à polícia para ver resolvido um problema de bagunça e barulho na sua vizinhança, a primeira coisa que o atendente do telefone 190 afirma é que ele deve procurar uma Delegacia de Polícia e elaborar um BO (Boletim de Ocorrência). Se a reclamação é sobre barulho e perturbação do sossego nas altas horas da noite a polícia fala que não é assunto dela, mas da prefeitura. Mas onde está a prefeitura nas altas horas da noite? Para ser objetivo (ou focar as coisas com efetividade), o brasileiro deve olhar para países da Europa e dos Estados Unidos. Nessas localidades um policial acionado tem autoridade para resolver a questão que aflige o cidadão, sendo ele (o policial) responsável pela elaboração e execução do tal BO. Simples assim. Vejamos o que acontece por aqui: temos a Polícia Militar, Polícia Civil, Guarda Civil Municipal, segurança particular e fiscal (quando eles existem) da Prefeitura. Quer dizer, são cinco "autoridades" para resolver um assunto que lá fora só um resolve. E, verdade seja dita, lá resolve com um e aqui fica-se num jogo de empurra e ninguém resolve.
 
2 - Vejamos agora o nosso trânsito. Lá fora, nas cidades da Europa, por exemplo, a embriaguez ao volante de um automóvel de cara dá a esse mau condutor uma multa de 5 mil euros (algo em torno de R$ 15 mil) e prisão. Não tem discussão. Aqui no Brasil, um condutor visivelmente embriagado tem o direito de não fazer o teste do bafômetro sob a justificativa de que a lei permite que ele não crie provas contra ele próprio. E ponto final! Nem que ele tenha assassinado pessoas usando seu veículo como "arma". Fácil, não?
 
3 - Nossa justiça tem muito mais preocupação em cuidar dos direitos dos bandidos do que do direito das vítimas desses bandidos e seus familiares. O Brasil tem Bolsa Prisão para quem mata, mas não temos para a família da vítima. Profissionais do meio acadêmico defendem o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) dizendo que o erro não está na lei, mas sim em quem executa o Estatuto.
 
4 - Nossa presidente da República, em 2013, preparando a campanha eleitoral de 2014, segurou os preços da conta de luz e do tanque de combustível dizendo que agia assim em benefício da população. Quem está cobrando agora a nossa presidente, por esses atos criminosos, cujas consequências cada cidadão vai pagar nos próximos anos? A presidente, reeleita, me faz lembrar aquela história do marido pego numa situação complicada pela própria esposa. O que ele diz? Simplesmente, com uma cara de pau, ele afirma: não é isso o que você está pensando. No caso do Petrolão o cinismo é tão impressionante que não tenho mais palavras que possam adjetivar essa postura. Em qualquer país sério os responsáveis, sejam jurídicos ou políticos, não se justificam dizendo que “como os outros fizeram não tem problema a gente fazer”. Fácil não?
 
Mesmo assim, apesar deste grito de revolta, acredito que a sociedade pode, com foco, avançar com qualidade. Minha luta é essa e fica o convite para que seja também a sua, leitor.
 
Sergio Antonio Reze é presidente do Instituto Defenda Sorocaba.




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