Pesquisar

Editorial Jornal Cruzeiro do Sul: Uma Proposta, Um Desafio
25/12/2014

Reprodução de editorial do Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba e região, publicado na edição de 25.12.14, página 03 do caderno A.
 
Uma proposta, um desafio.
 
Lançada pelo Instituto Defensa Sorocaba (IDS) e Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), a proposta de criação de um órgão municipal autônomo, responsável por estudar e planejar o desenvolvimento de Sorocaba sem estar sujeito a ingerências de natureza político-partidária, coloca o governo do prefeito Antonio Carlos Pannunzio (PSDB) e o Legislativo sorocabano diante de um desafio que, dada sua magnitude, pode até ser confundido com uma utopia.
 
Não que a ideia não seja desejável. Na verdade, ela traduz um modelo ideal de condução dos assuntos vitais para a cidade, em que os estudos e projetos indispensáveis à indução de um crescimento sustentável e ao equacionamento dos problemas urbanos seriam levados a efeito - não como ações obrigatórias, mas como subsídios aos ocupantes temporários do poder - independentemente das trocas de governos e partidos.
 
A ideia é desafiadora e remete involuntariamente à utopia, na medida em que se sabe ser esse modelo de planejamento contrário à tradição da política brasileira, personalista a ponto de governos entrantes mandarem suspender obras e projetos dos governos que saem, comprometendo, por vezes, boas iniciativas -- e isso, até mesmo quando o governante eleito pertence ao partido ou grupo político do que está de saída.
 
No competitivo mundo da política partidária, as chamadas marcas de governo -- temas centrais em que se desenvolvem as ações de grande impacto -- e a imagem do chefe do governo são praticamente indissociáveis. Cada governantes se esforça por criar suas próprias marcas, que constituirão seu patrimônio eleitoral em futuras empreitadas políticas, ainda que isso implique o desmonte das marcas do governo anterior.
 
Ao contrário do que as práticas políticas sugerem, entretanto, a existência de um órgão dotado de autonomia institucional, com corpo técnico profissional capaz de monitorar as tendências naturais de crescimento da cidade, detectar os possíveis gargalos e carências que esse crescimento gerará no futuro e projetar soluções, não diminuiria o poder dos governantes. Antes, potencializaria sua capacidade de realizar coisas boas.
 
É desgastante perceber que os governos, em geral, são pautados principalmente por projetos de curto e médio prazo -- o que equivale dizer, projetos que possam ser inaugurados dentro de quatro anos, integralizando assim o patrimônio político daquele que os iniciou. É rara -- e, nesse aspecto, Pannunzio foge à regra -- a opção por projetos de grande porte que demandam mais do que quatro anos para serem concluídos, como é o caso do BRT (ônibus rápido) e do novo hospital público de Sorocaba.
 
Pannunzio certamente não concluirá o BRT e o novo hospital em seu mandato iniciado em 2013, ficando na dependência de uma reeleição para colher os créditos integrais de sua obra. Mas isso não o impediu e dar início aos projetos, o que indica um desprendimento raro na política brasileira. Talvez esse mesmo desprendimento, transposto de forma conceitual para a administração como um todo, possa ser o germe da criação de um instituto responsável por "pensar" a cidade localmente e no contexto, já agora inexorável, da Região Metropolitana de Sorocaba.
 
Algumas das maiores realizações da humanidade, como o programa espacial norte-americano, que levou o homem à Lua em menos de uma década, seriam impossíveis se, a cada mudança de governo, houvesse a necessidade de recomeçar tudo da estaca zero. Este, naturalmente, é um exemplo extremo, mas ilustra como um trabalho contínuo e bem executado pode tornar os governos mais eficientes, permitindo-lhes começar ou manter projetos indispensáveis a médio e longo prazo, sem abrir mão dos projetos de curto prazo que eles, com as inevitáveis festas políticas, sempre terão a chance de inaugurar.
 
Notícia publicada no editorial do Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba e região, edição de 25.12.14, na página 03 do caderno A.
 




« Voltar