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Aula de Brincadeira
12/10/2015

O texto que segue está aqui reproduzido por abordar área de grande importância nas nossas atividades educacionais, apresentando criatividade na condução do ensino escolar renovador e produtivo. É a transcrição integral de matéria publicada pela Revista Veja São Paulo, datada de 14.10.2015, em reportagem de Aretha Yarak.
 
Escolas da capital misturam brincadeiras às lições teóricas.
 
Sem recorrerem à tecnologia, escolas introduzem jogos e outras inovações para consolidar os conceitos aplicados em classe.
 
Atividades corriqueiras nas aulas de geografia do ensino fundamental II, a leitura e a interpretação de mapas costumam ser um pesadelo para os estudantes. Paralelos, meridianos e graus são conceitos que flertam com a matemática e provocam pânico em mentes pré-adolescentes. “Eu ficava angustiada por perceber que eles simplesmente não conseguiam compreender a lição”, diz a professora Mônica Leopoldino Silva Fernandes, responsável pela disciplina no Colégio Mary Ward, no Tatuapé.
 
Para mudar esse cenário, ela resolveu pôr seus alunos para brincar e desenvolveu um jogo de tabuleiro com o mapa-múndi. O objetivo é seguir a orientação de cartas — com informações como coordenadas e fusos horários — e encontrar determinados pontos no desenho. O resultado foi notável: uma turma com desempenho apenas mediano na matéria passou a ter resultados bem melhores dentro de pouco tempo. “Transferir o que era abstrato para um universo concreto fez toda a diferença”, afirma Mônica.
 
Animadas pela novidade, as crianças comemoraram. “Fica mais difícil esquecer quando a lição é desse jeito”, conta Maria Eduarda Pereira Scetta, de 12 anos. A estratégia de introduzir inovações pedagógicas em classe é cada vez mais comum em escolas da capital. “Exercitar o conteúdo aplicado melhora o aprendizado porque transforma o conceito em experiência”, diz a presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Luciana Barros de Almeida.
 
Mas, para captar a atenção dos jovens, nem sempre é preciso recorrer à fórmula fácil de voltar-se para a tecnologia. O objetivo pode ser atingido até mesmo em uma prosaica brincadeira na aula de educação física. Toda quarta-feira, a turma do 6 ano da unidade de Pinheiros do Colégio Objetivo forma os times e entra em quadra. Mas, em vez de disputar as banais partidas de vôlei ou futebol, cada jogador assume a função de um personagem dentro de um tema específico estipulado pelos orientadores. Pode ser a Idade Média (para colaborar com o ensino de história), o sistema solar (para ajudar em ciências) ou qualquer outro assunto.
 
Em uma proposta recente, por exemplo, os alunos representaram servos, reis e arqueiros. O objetivo era derrubar, com uma bola, todos os habitantes do “castelo inimigo”. Algo semelhante a um jogo de queimada. “Enquanto praticamos a atividade, estamos reforçando o que aprendemos nas outras matérias”, explica Leandro Marsaioli Domingues de Castro, de 10 anos.
 
Há também ganhos na própria disciplina de educação física. “Por meio dessa fantasia, consigo ampliar a participação da turma para além daquele grupinho com habilidade e aptidão natural para o esporte”, comenta o professor Giorgio Falco.
 
A redação de cartas escritas a mão foi a ferramenta adotada pelo Colégio Humboldt, em Interlagos, para ensinar português. Desde o primeiro semestre, os matriculados no 7 ano trocam correspondência com estudantes de países que também adotam nosso idioma. A primeira remessa de textos chegou de Portugal em abril. Com eles em mãos, a moçada identificou diferenças linguísticas, estudou construções verbais e analisou o papel do mais recente acordo ortográfico.
 
A resposta brasileira foi enviada em setembro. “Tivemos de pesquisar para poder entender as mensagens e escrever de volta”, conta Nicole Kozlowski, de 12 anos. O próximo passo do projeto será implantar o mesmo tipo de “intercâmbio” com Moçambique e Macau. “Minha meta é que todos os alunos dessa faixa etária passem pela experiência”, explica a professora Carolina Yokota.
 
Até as temidas aulas de matemática estão passando por uma “recauchutada” para que se tornem menos duras. No colégio Pio XII, no Morumbi, os estudantes de 6 e 7 anos podem levar suas canções favoritas para que sejam reproduzidas na sala. A caixa de som portátil é ligada durante a resolução de exercícios, mas fica proibida durante as explicações e correções. “Há estudos que apontam que a música aumenta a concentração”, conta o professor Marco Malzone, reconhecendo a melhora de rendimento em sua classe. Entre os artistas mais ouvidos estão os ídolos adolescentes Justin Bieber, One Direction e Katy Perry.
 
Há novidades também para alunos menores. Nas três unidades do Colégio Visconde de Porto Seguro, integrantes do 2 ao 5 ano passaram a realizar experimentos científicos, o que é incomum nessa faixa etária. As atividades englobam temas como saúde, meio ambiente e eletricidade.
 
Um exemplo de tarefa consiste em deixar a criança construir um filtro de água para que descubra sozinha se o melhor funcionamento está relacionado com pedras pequenas ou grandes ou, ainda, com areia. “Ela aprende a levantar hipóteses e fórmulas antes de o professor ensiná-la”, afirma a vice-diretora pedagógica, Carla Dauch.

IDS




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